Eu, citadina, me confesso (cães, escola e outras histórias)

Há cerca de mês e meio, a minha cadelinha candy morreu. Numa manhã de sexta-feira, minutos antes de seguir para o trabalho, encontrei-a agonizante no jardim e já mal respirava. Um pouco de pânico assolou-me. Na véspera, tinha decidido levá-la ao veterinário pois algo não estava bem, seguramente  – não comia há dias, queria sempre enfiar-se na casota e, a sua maior alegria – ir à rua passear com a dona, sempre evidenciada com pulos de alegria – deixou de a interessar. Mas nada faria supor que tudo se precipitaria tão rapidamente. Naquela manhã, ao vê-la naquele estado – depois de avisada a minha chefia de que iria chegar mais tarde – peguei nela a braços e coloquei-na no carro, correndo para o consultório veterinário mais próximo. Moro numa aldeia, sede de freguesia, com dois veterinários a atender ao público. No entanto, apenas em part-time. Sabia que um desses só abrir às 15.00h por isso, mesmo não conhecendo o outro, dirigi-me apressadamente para lá. Chego e vejo na placa da porta algo como “Atende às 3ªs e 5ªs feiras, das X às Y horas”. E era uma sexta…

Corro de seguida para o outro veterinário, com pouca esperança mas, quem sabe? Confirmava-se a porta fechada e, ninguém. Abertura a partir das 15.00h. Neste brevíssimo curso de poucos minutos, a candy deixou de respirar.

Pensei escrever este post porque as circunstâncias daquela manhã me fizeram relectir sobre realidades muito sérias da nossa vida “moderna”. Aquela manhã, um misto de dor, de incompreensão do que se passou, de alguma censura a mim própria por não me ter apercebido da gravidade da situação, deixava um sentimento de impotência total, de ignorância, de incapacidade para perceber esta companheira de mais de 9 anos.

Tentei “ler” mais profundamente isto e, ganhava contornos, com aquela experiência, uma verdade que já conhecia mas, agora se tornava evidente.

A voz insatisfeita dizia algo assim: até frequentaste a universidade, fizeste duas pós-graduações (portanto, não te faltam estudos), convives com este bichinho há tanto tempo, gostas dele, falaste com um veterinário dois dias antes, ao telefone, para tentares aconselhar-te do que fazer e, ainda assim, não consegues minimamente perceber o que aconteceu nem tentar evitá-lo. Não compreendes nada do físico dos cães, não conheces a sua fisiologia, a sua anatomia, a sua psicologia, nada…

É verdade que era o primeiro cão da minha história mas, se fosse com um gato (que me acompanham há 15 anos, pelo menos), teria sido muito igual. Precisavas de saber um pouco de veterinária. Um pouquinho só, o suficiente para, se fosse preciso um dia, saberes acompanhar o parto de uma égua, de uma vaca. Porque ninguém me ensinou?

Que sensação estranha a de saber muitas teorias do Direito, da economia e de outras matérias, supostamente importantes, mas nada sobre as criaturas físicas que vivem contigo diariamente.

De não saber cuidar desta vida concreta; De não saber criar uma galinha, do que gostam de comer, do que necessitam – e, no entanto, comê-las; De não saber semear um alho francês – e, no entanto, comê-lo. De não fazer ideia do que uma ovelha ou uma cabra necessitam para serem criadas – e, no entanto, comer produtos do seu leite, comer a sua carne e usar diariamente a sua tão deliciosa lã.

De não saber fazer fogo; de não saber fazer um abrigo improvisado, de não saber filtrar água para beber… de não saber o essencial à sobrevivência.

Esta sensação de enorme afastamento da realidade natural que me rodeia – física, biológica, química, física – a começar pelos animais que me circundam, fez-me reflectir sobre o tipo de sociedade em que vivo, a sua organização prática, os seus valores de base.

Relembrei-me que sou “menina de cidade”. Que não tinha os avós “na aldeia”, como muitos dos meus colegas, o que me permitiria ter contactado mais com as realidades tradicionais. Só na tenra infância, sim, pude contactar com o Minho profundo (as raízes paternas são de lá) mas, grande parte das memórias já se perderam…

É precisamente por isto que a educação escolar deve ter um papel preponderante no inverter estas circunstâncias desfavoráveis dos habitantes das polis. Sabiam que quase 50% da população portuguesa vive em cidades – valor acima da média europeia?

Já todos ouvimos referir – apreciando a sua comicidade – que muitas crianças, perguntadas sobre “de onde vêm os frangos?”, respondam “dos supermercados”.  Que os imaginem a serem “fabricados” já sem penas, sem sangue, sem cabeça ou mesmo prontos a comer, em versão de nugets ou panadinhos. A mesma resposta para a pergunta “de onde vem o leite?” – Dos pacotes do supermercado, claro! Ou mesmo, chegando ao limite do surreal, o recente estudo sobre consumidores norte-americanos que, numa percentagem a rondar os 20% se não me engano – afirmaram que o leite com chocolate (leite de cor castanha) provinha de vacas castanhas, enquanto o leite branco “normal” provinha das vacas brancas ou brancas e pretas, malhadas.

Este afastamento do campo (pelo menos, nas grandes cidades) a que somos constantemente obrigados pelo “sistema”– e a que nos resignamos, já sem sequer questionar, porque é maior que nós –  é profundamente desumano e sobretudo, desumanizante. Este alhearmo-nos em relação a coisas centrais da nossa vida, ao nosso próprio equilíbrio e saúde, física e mental é o estilo de vida em que vivemos. Mas não é um bom caminho e muitos já se dão conta, rebelando-se contra ele. A vaga dos “novos rurais” é sinal evidente disto. Dos que já não suportam tanto tráfego, horários stressantes, vida demasiado cheia de compromissos e sem margem para extras que não o trabalho. Voltar ao campo é o novo “êxodo rural” a que iremos continuar a assistir, cada vez mais (ainda bem) – agora no sentido inverso do que estudámos na escola (pelo menos na Europa), após e durante a revolução industrial.

Termino com uma actualização simpática: há 4 dias, chegou a lola, fui buscá-la a um abrigo.

É jovem e irrequieta. Creio que está muito contente com ter agora um dono, ervinhas para trincar – e, eu, uma nova amiga! Aconselho vivamente, a quem tenha espaço suficiente, esta “terapia” 100% natural!

Um abraço, até 4ª feira que vem!

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